A via dolorosa de anuncia-se
antes deste momento. E podemos antecipar um pouco o momento que acabámos de
escutar. Jesus decidira comer a Páscoa com os discípulos. E nessa mesma
refeição um foi o que saiu para cumprir a traição, Judas, outro aquele que disse
a Jesus que ainda que todos o abandonassem, ele não, Pedro, e todos, disse
Jesus, todos o abandonariam.
«Pai, afasta de mim este cálice!»
Consciente da sua sorte, Jesus
reza àquele que o podia livrar, que lhe afastasse o cálice que estava prestes a
beber, e que acabaria por ser a sua entrega por todos na Cruz para remissão dos
pecados. Entregando-se à vontade do Pai, Jesus experimenta porém em si a dor do
abandono de todos. Nesta mesma hora até o Pai parece ser indiferente às suas
súplicas.
«Amarraram-no»
O beijo de Judas, aquele grupo
com espadas e varapaus ao encontro de Jesus, a sua prisão, o abandono e a fuga
dos discípulos, de Anás para Caifás – este que tinha dito que era melhor um só
morrer por todos – a bofetada do primeiro, contrastam claramente com a
inocência do prisioneiro: «Se disse algo de mal, mostra-me, senão porque me
bates?»
A negação de Pedro, aquele que
poucas horas antes tinha assegurado a Jesus que jamais o negaria, confirma
categoricamente o que Jesus predissera.
Nos tribunais
Aos olhos dos judeus o crime de
Jesus era claro. Por isso o interrogam, «diz-nos, és tu o Messias?» «Então és
tu o Filho de Deus?». Claro que para O levarem à presença de Pilatos, a
acusação transforma Jesus no Rei dos Judeus, agitador de multidões. Nenhum quer
julgá-lo. Nem Herodes, nem Pilatos. Herodes despreza Jesus, e aproveita a
ocasião para ter um gesto que repõe a sua amizade com Pilatos, enviando-lhe o
prisioneiro para que fosse ele a decidir, reconhecendo assim importância ao
procurador romano. A multidão deixa-se conduzir e prefere Barrabás ao criminoso
Jesus. Grita mesmo a Pilatos «Crucifica-o!». Os chefes dos sacerdotes
reconhecem mesmo como único rei o imperador. E Pilatos lava também as mãos, e
entrega-lhes o condenado. Terceiro momento definitivo neste julgamento: é a
coroação de espinhos de Jesus pelos soldados, vestindo-lhe a capa vermelha,
escarnecendo e cuspindo sobre ele. «Viva o Rei dos Judeus!»
Talvez como nenhum outro acontecimento no
Evangelho este coloque diante de nós até onde pode a maldade humana. Sabemos
bem, o inocente vai carregar a cruz. O único Justo pelos injustos. Porém, tal
qual aquela multidão, permanecemos incapazes de mudar a nossa opinião, apesar
da verdade que sabemos no nosso coração. Teimamos em ser essa massa humana sem
forma, de homens e mulheres incapazes de nos compadecermos verdadeiramente do
sofrimento dos inocentes. Naquele tempo Jesus foi carregado com a cruz da
mentira, hoje continua a ser carregado constantemente com a cruz da maldade, do
egoísmo, do pecado, da solidão, da dor, da injustiça de quantos cristos são
hoje de novo escarnecidos, cuspidos, revestidos com a púrpura da indiferença, e
coroados com os espinhos do ódio humano. Jesus foi tão somente aquele que
aceitou carregar de uma vez por todas a cruz imerecida de tudo isso.
Não pensemos que seríamos
diferentes se nos tocasse a nós estarmos na presença de um julgamento tão
injusto. Aquele povo não teve mais culpa que nós. Aquela multidão não era nem
melhor nem pior que nós hoje. Aqueles homens e mulheres não experimentaram mais
a graça de Deus que nós aqui. Aqueles discípulos que o negaram e fugiram,
continuamos a ser hoje nós, capazes de dar o beijo da traição àquele a quem
chamamos Mestre, e a dizer «não conheço tal homem», quando nos pedem razões da
nossa fé.
Outros são os julgamentos
colocados diante dos nossos olhos em todos aqueles que sofrem e, quem sabe,
ainda que salvássemos Jesus, naquele tempo, continuaríamos a condená-lo hoje,
como infelizmente o fazemos até no irmão mais próximo. Hipócritas, vemos o
argueiro no olho do vizinho, e permanecemos incapazes de ver a trave em nós
próprios. Apedrejamos todos aqueles que são apanhados em flagrante delito, e
não fazemos ao mais pequeno, aquilo que pensamos ser capazes de fazer a Jesus.
Não compreendemos o que é entregarmo-nos como Ele nas mãos do Pai. Então,
adormecemos. Abandonamo-lo. Fugimos. Somos até capazes de esbofetear a verdade
da Sua Palavra, apesar de a sabermos ser verdadeira, e de vida eterna. E
amarrando-O, amarramo-nos a nós mesmos e à verdade das nossas vidas. Não
percebemos como pode o perdão e o amor serem caminhos de um Messias, do Filho
de Deus, do Salvador do mundo.
Acreditamos mais noutras
salvações, aliás, colocamos a nossa esperança na saída da crise, económica ou
qualquer que seja, através daqueles que antes não suportávamos. Já não é Jesus
o nosso Rei, não temos outro senhor senão o mundo. E aqui reside a nossa
cobardia, e ao mesmo tempo a nossa tentativa de lavarmos as mãos. Outros o
crucificaram. Não nós. Não os nossos erros nem os nossos pecados.
Percorremos as ruas da nossa
existência procurando uma resposta para a maldade, o erro, o pecado e a miséria
humanas. E atrevemo-nos a apontar, por vezes, com muitos dos nossos
contemporâneos, o dedo a Deus. «Crucifica-O», repetimos. Não fomos nós que
deixámos de partilhar o que temos, «Crucifica-O». Não fomos nós que não ousámos
amar o outro na sua verdade, «Crucifica-O». Não fomos nós que usámos mal a
nossa liberdade, escolhendo o que nos prende, «Crucifica-O».
Diante deste espetáculo que
coloca frente a frente o imenso amor de Deus e a estupidez humana, sentimo-nos
tentados a desviar o olhar. Nem espetatores porventura quereríamos ser. Porém,
infelizmente, somos atores.
Eis que de novo hoje pudémos reviver a Paixão
de Jesus. Longe do drama histórico, este ato de piedade, volta de novo a
fazer-nos percorrer o caminho da dor. Entendemos pela fé o que significa Deus
ter amado tanto o mundo que lhe deu o seu filho único. Porém queríamos na vida
«ver Jesus», «ter um coração puro», e percebe-lo já glorioso nas nossas vidas,
ajudando-nos a levar as nossas pequenas cruzes, que tantas vezes pensamos serem
maiores que a dele. Entretanto o nosso maior obstáculo está não fora, mas
dentro. Enquanto não aceitarmos com a vida a sua morte por nós, enquanto não
estivermos todos os dias gratos pelo dom infinito do seu amor, enquanto não
virmos no outro a imagem do único Justo. Enquanto assim for, podemos continuar
a percorrer, até cheios de devoção, cada uma das estações deste caminho
doloroso. Mas ele nunca deixará de ser um caminho vazio. Porque o fechamos num
local e numa época concreta. Mas não deixamos que Jesus na nossa vida nos
ensine a caminhar, seguindo-lhe os seus passos.
Jesus não se nega a si mesmo, e
aceita por amor, e só por amor, levar a nossa Cruz. Por nós, Ele tornou-se
maldito, condenado a um martírio, preso a uma cruz, vilipendiado entre
malfeitores, escarnecido como um pecador. Por nós ele fez-se pecado, para que
nós fossemos justiça de Deus.
Faz-nos, Senhor Jesus, capazes de
imitar na vida o teu exemplo, para que carregando contigo a Cruz, possamos
contigo entregar-nos à vontade amorosa do Pai.
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