Começamos a existir Naquele Sonho que faz realidade todos os outros, derramando o Seu amor, através do amor de dois seres humanos, e, no milagre da vida, descobri-mo-nos capazes de pensar, de amar, de chorar, mas também de sorrir. Misturando este sonho, agitado pela vida, assim pensamos... e do pensar a letra se faz, e da Palavra se recomeça de novo, como na Origem.

21 setembro 2010

«Segue-me»

Naquele tempo Jesus ia a passar e vê um homem na sua ocupação habitual. Foi na banca dos impostos, como hoje poderia ser a varrer a rua, numa escola, num café, não importa. Jesus não se desvia de nós para passar, ao contrário escolhe o lugar onde nós estivermos para passar junto a nós e nos dirigir a Sua palavra: «Segue-me». Assim foi com Mateus. Não se preocupou se a sua ocupação era mais justa ou menos, mais pura ou menos. Na realidade, era funcionário dos estrangeiros, dos dominadores, dos ocupantes, dos que continuavam a subjugar aquele povo, com um estranho conceito de paz, sem vencedores nem vencidos, mas de pessoas intimidadas pela presença estrangeira e que pagavam cada dia a sua liberdade pelos pesados impostos. Mateus era instrumento disso. Curiosamente Jesus passa por onde ele está a trabalhar e interpela-o com uma palavra. Um convite, que encontra eco no coração daquele homem. Há muito que ouvira falar de Jesus. A Sua fama precedia-O. Que poderia querer dele aquele filho do carpinteiro de Nazaré, agora seu vizinho em Cafarnaum? Ir com Ele era deixar a segurança de um trabalho que lhe permitia certamente mais do que o sustento necessário, uma vez que retirava do imposto uma parte para si. E que novo imposto quereria Jesus que ele cobrasse? Que contas quereria que fizesse agora? Qual a parte que lhe estava destinada nesta nova banca de cobranças? Por outro lado significava deixar de ser olhado de lado pelos seus irmãos de raça. Deixando de ser funcionário dos opressores, e portanto opressor com eles. Passaria a estar agora do lado dos oprimidos? Ou passariam os seus irmãos de raça a olhar para ele como mais um louco que seguia outro louco?

Estas e muitas outras perguntas se terão formado no espírito de Mateus. O Evangelho não nos dá conta delas. A atitude deste homem depois de escutar a palavra de Jesus é relatada em duas palavras: levantou-se e seguiu. Deixa o que está a fazer, e à palavra de Jesus este homem ergue-se de onde estava sentado. E segue-O. A verdadeira banca de impostos em que Mateus estava sentado a cobrar era a banca do egoísmo, esse imposto que nós seres humanos temos por hábito taxar aos outros. E Mateus vai passar a ser distribuidor em vez de cobrador: tal como Jesus distribui amor, misericórdia e compaixão. Segue Jesus mas é Ele quem entra na sua casa. Jesus continua desconcertante, e não vem sozinho, vem rodeado de pecadores e publicanos, duas «espécies» de gente que os fariseus tinham por hábito classificar de indesejáveis. Faz-se rodear «desse tipo de gente», de onde pelos vistos escolhe também os seus discípulos. E de imediato a gente de bem daquele tempo interpela os discípulos: porque motivo come «o vosso mestre» com pecadores e publicanos? A resposta de Jesus é confirma aquilo que estava à vista: não são os que estão sãos que precisam de médico, não são os justos que precisam de um redentor, não veio chamar os que são peritos em sacrifício, mas sim os doentes, os pecadores, os que têm falta de misericórdia. E deixa aos que se atrevem a criticar as intenções do Mestre uma ordem: ide aprender o que significa «Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios».

Mateus torna-se, segundo «a medida do dom de Cristo», evangelista, a fim de «contribuir para a edificação do Corpo de Cristo», passando a ser «homem perfeito segundo a medida de Cristo na sua plenitude». O desafio é bem claro. Hoje é por nós que Jesus passa e é a nós que desafia: «segue-me». É de nós que espera que o sigamos, porque à sua palavra seremos capazes de nos levantar do erro a que estamos tantas vezes agarrados, deixar a banca do egoísmo em que insistimos tanto em trabalhar, quem sabe porque estamos iludidos esperando obter daí salvação, taxando mal o mundo, os outros, quem sabe nós próprios, entregando de mão beijada a nossa liberdade, em troca de uma paz falsa. Vivendo nós na nossa própria terra como se fossemos estrangeiros. Jesus passa de novo por nós. Talvez já tenhamos ouvido falar dele. Talvez já nos tenhamos perguntado porque é que Ele decidiu ser nosso vizinho, próximo de nós. Ele tem o estranho hábito de se fazer rodear de pecadores e publicanos. Talvez seja isso que nos faz evitá-lo. O nosso fariseísmo impede-nos de ouvir as suas palavras, e apenas somos capazes de ver de quem se rodeia. Parece que é de gente que não interessa. É mais fácil criticá-lo do que deixar-se seduzir pelas suas palavras. Aceitá-lo e segui-lo é passar aos olhos de muitos dos nossos contemporâneos a fazer parte do grupo dos que seguem esse «Mestre». Seremos nós capazes de lhe responder ao seu convite? Será que somos capazes de responder aos que nos perguntam porque é que o nosso mestre come com pecadores e publicanos? Ou somos dos que lhe perguntam que tipo de mestre é por tomar essa atitude? O nosso mestre é O Mestre que inverte doutrinas, que não mede como é medido, mas que tem uma medida própria, que prefere a misericórdia aos sacrifícios. Um perfeito louco, já se vê. Perigoso esse Jesus. Tanto mais que é provável que se vire para os que o criticamos de longe mas não abertamente, e nos advirta que esses a quem julgamos, serão nossos juízes no fim. É um médico para doentes. Chama os pecadores. Compadece-se dos fracos. É capaz de fazer levantar os que estão tranquilamente sentados na sua banca de trabalho habitual, para fazer de uns apóstolos, outros evangelistas, outros mestres, para a construção do Seu Corpo.

10 junho 2010

Um olhar diferente...

Um dia um homem muito importante, e que aos olhos de Deus tinha sido tornado grande. Tinha tudo e mais ainda do que o necessário. Não contente com isso, esse homem desejou a única coisa que não lhe pertencia. O nome do homem era David, o que não lhe pertencia era a mulher do próximo. A fraqueza está presente nas nossas vidas. Seja como David, ou como a escritura narra, desde Adão, passando pela história que hoje narra o Evangelho e por tantas outras, que são inclusive as nossas. À mesa, como convidado, Jesus está certamente reclinado, como era habitual fazer-se no tempo. No fim dos banquetes, numa sociedade com os seus problemas, prostitutas procuravam os seus clientes, porventura já embriagados. Todos sabiam o motivo pelo qual essas mulheres rondavam as mesas dos festins. O julgamento do fariseu Simão foi imediato. Se o seu convidado fosse profeta já saberia quem era a mulher e o que queria dele. Mas a mulher tem uma atitude que surpreende. Procurava hoje um cliente diferente, para um outro encontro. Ela trouxe um frasco de perfume, e sem ousar pôr-se à frente de Jesus, chorando, lava os pés de Jesus e utiliza para os secar uma toalha, no mínimo invulgar, os seus cabelos. Beijava-os e ungia-os com perfume. Jesus tem um problema maior para resolver antes de se dirigir àquela mulher. Tem que resolver o dilema no coração do seu anfitrião. Nova história. Se um homem tendo dois devedores, e um lhe devesse mais do que o outro, e por não terem com que pagar, perdoa a ambos, qual devia ser o mais agradecido? Até nós daríamos a mesma resposta de Simão. No que toca a problemas de dinheiro, somos todos peritos. A quem mais foi perdoado, mais agradecido deve ficar. Mas, mudando a realidade, e tratando de coisas bem mais importantes que o dinheiro, de uma pessoa, seja da mulher pecadora, seja de David, ou de tantos irmãos nossos, a nossa resposta não seria a mesma.
O olhar de Jesus é diferente. Não se apressa a julgar os comportamentos da mulher. E no meio daquelas lágrimas e de beijos, Jesus vê amor e arrependimento. Afinal o Profeta de Deus não vinha trazer mais moralismos vazios, mas antes compaixão. Jesus prefere reconhecer nela uma mulher que se sabe amada e perdoada por Deus. Por isso deixa-se tocar e amar por ela. Oferece-lhe o perdão de Deus.  Ajuda-a a encontrar dentro de si própria a fé que a salva e que a deixa viver, dai em diante, em paz. Por isso afirma Paulo que não é pelas obras da Lei que o homem se torna justo, mas pela fé em Cristo Jesus. Por isso é que todos nós acreditámos em Jesus, a fim de vivermos para Deus. E viver para Deus é viver como Jesus viveu, fazendo do olhar dele o nosso olhar, da sua compaixão a nossa, do seu perdão o nosso, do seu amor, o nosso. E depois como diz Paulo, já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. E se vivemos ainda marcados pela nossa fraqueza, vivemos animados pela fé no Filho de Deus que nos amou e se entregou por nós, para que Cristo não tenha morrido em vão.
Hoje, no meio de nós, não fazem falta muitas palavras. Apontar os outros, porventura como o fariseu no Evangelho, mesmo no nosso coração, é sempre mais fácil do que acolhê-los, amá-los e mostrar-lhes o perdão de Deus. Foi assim que Jesus fez, e é assim que Ele quer continuar a fazer, através de nós. Ele é mestre e senhor. Mas se ele não se limitou a ensinar, mas a ser profeta da compaixão de Deus, então nós temos de seguir-lhe o exemplo. Temos de ser cristãos capazes de olhar para os marginalizados, os transviados, aqueles que ninguém quer por perto, com os olhos de Jesus. Felizes aqueles que têm já na sua vida esta opção. Sejamos nós capazes de tomar esta opção, afinal a de Jesus, e a de tantos santos e santas, doutros tempos e do nosso, para estar juntos de quantos precisam de quem defenda a sua dignidade, e desperte a sua fé no Deus que a todos nos ama, entende e perdoa, como nós não somos capazes de fazer. Não há outra forma de perdoar os nossos próprios pecados. O próprio Jesus é quem nos diz: «São-lhe perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama». A todos nós muito foi perdoado, porque esperamos para amar mais ainda?

06 junho 2010

Hoje em mim!!! 24

Continuo a ser um pensador, às vezes dormindo, outras vezes acordado. Capaz de sonhar, viver e amar, porque outros amaram por mim, e me fizeram acreditar que o pensamento é a expressão da liberdade dos que Ele criou.

Hoje com mais um ano de vida, agradeço-Lhe tudo o que me concede. Vale a pena lutar por ser feliz!

05 junho 2010

Eu te ordeno, levanta-te!


Apetece-me começar com uma pergunta: depois de vivernos o Tempo Pascal, que terminou com o Pentecostes, depois do Domingo da Santíssima Trindade, e até do Dom do Corpo e do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, como é que na vida do dia-a-dia descobrimos a presença de Deus?  Em que é o que celebrámos na fé, adiantou para a nossa vida de hoje?
A maneira de perceber Deus e a própria vida foi variando ao longo dos tempos. Disso mesmo dá testemunho a Palavra de Deus. Por um lado, perceberemos nós Deus presente nas nossas vidas? Questionando-O, e à sua forma de proceder, até duvidando Dele, e daqueles que Ele coloca no nosso caminho? É o que acontecia hoje na primeira leitura. Uma mãe questiona um homem. Viria ele lembrar-lhe os seus pecados? Seria a morte do filho seria culpa dele? E, então, Elias, assim se chamava o homem, intercede diante de Deus por aquela pobre mulher, viúva, e pelo seu filho entretanto morto. Por outro lado, será que às vezes nos esquecemos que é possível que seja o próprio Deus a vir ao nosso encontro? Disso dá testemunho o Evangelho. Jesus olha para a mulher e já não tem necessidade que ninguém interceda por ela e por seu filho morto. Ele próprio olha para ela, compadece-se e diz-lhe cheio de compaixão: Não chores! O novo profeta já não tem necessidade de se dirigir por três vezes a Deus, mas, porque Ele próprio é Deus, ordena ao jovem que se levante. Imediatamente ele se levanta e começa a falar. Num e no outro caso é motivo para que se dê glória a Deus. Porque Deus visita o seu povo, Deus salva o seu povo.
Em Jesus Cristo Deus vem ao nosso encontro, para ser nosso alimento, para se fazer caminhante connosco, pelas estradas da vida. Não admira que este Deus surpreenda e contrarie as intenções de Paulo, como escutávamos na II leitura. Ele predestina-nos desde o seio materno, chama-nos pela sua graça, para revelar em nós Jesus Cristo, a fim de que nós demos testemunho e O anunciemos. Como dirá S. João, nisto conhecemos o amor de Deus para connosco, não fomos nós que O amámos, mas foi Ele que nos amou primeiro. Quando éramos injustos, um só morreu por nós.
Este Deus que é Família, que é Trindade, que Se aproxima livremente de nós, apenas por amor, não se limita a dar-se-nos a conhecer, e a revelar-Se como amor, mas quer que nós entremos nesta comunhão, neste diálogo, que só pode ser de amor. Como Paulo deixamos de consultar a carne e o sangue, para passarmos a responder a este convite do Deus Amante, que através da nossa própria vida Se nos vai dando a conhecer. Geralmente é nos momentos baixos, que Ele Se nos mostra: com toda a sua força, a palavra de Deus hoje escolhe precisamente a negação da vida, a morte, como manifestação de Deus, isto é, onde parece estar o aparente absurdo. As situações semelhantes de duas viúvas, aquelas que mereciam mais compaixão segundo o judaísmo, por simbolizarem a extrema pobreza, que perdem os seus filhos únicos, o que lhes restava, são motivo para que Deus intervenha. De forma diferente, ora por intermediários, por profetas, ora fazendo-Se Ele mesmo o grande profeta, Deus salva os seus fiéis, porque a Sua benevolência dura a vida inteira, porque no amanhecer volta a alegria, Ele é o nosso auxílio, Aquele que converte em júbilo o nosso pranto, e nos dá motivo para que O louvemos eternamente.  
Não há maior convite ao amor do que experimentar previamente o Amor, dirá mais tarde S. Agostinho. De facto o convite hoje mantém-se, Ele dirige-se a nós, não para nos pedir contas dos nossos pecados, não para nos causar desgraças, não para nos pedir o impossível, não para nos deixar sem nada, mas para olhar para a nossa miséria, para se compadecer de nós, para limpar do nosso rosto as lágrimas e nos fazer de novo levantar: numa palavra para nos amar. Na multidão poderemos estar certos que Jesus dirige o seu olhar para cada um de nós, para a nossa vida, e à Sua palavra, a vida ganha um novo sentido. Já não estamos sós, Deus está connosco. E a nossa vida recobra forças, recobra a esperança.
Em cada Eucaristia, uma vez mais, seremos convidados a olhar para a Sua entrega por nós. Deixemos que Ele se faça nosso alimento, e com Ele celebremos o banquete do festim de Deus para nós, o verdadeiro sentido da nossa vida e da nossa existência. É à nossa porta que Ele bate para entrar. É Ele que tem palavras de vida eterna. Deixemos hoje uma vez mais que, na nossa vida, seja Ele a voz que ecoa no meio da multidão: Eu estou contigo para te salvar! Eu estou contigo porque te amo. Eu te ordeno, Levanta-Te!

01 maio 2010

Já não vos chamo servos, mas AMIGOS!

Num jogo de futebol, os que estamos a assistir somos todos adeptos. Num concerto, somos fãs. No cinema, espectadores. Nas profissões, que cada um de nós tem ou teve, somos chamados colaboradores. Numa colectividade das que existem por aí, somos sócios, e até há os que são sócios honorários. E, talvez noutras zonas, há os aficionados das touradas. Na Igreja, seja aqui, seja na nossa forma de nos relacionarmos em Igreja, habitualmente, chamamo-nos uns aos outros «irmãos e irmãs». E porquê? Porque em Jesus Cristo Deus assume a humanidade, elevando a nossa humanidade a um grau superior de fraternidade. Já não é apenas porque somos todos humanos que nos consideramos irmãos e irmãs. Mas é porque, em Jesus Cristo, Deus revelou-se, ao menos, como o melhor Pai que pode haver. Será que nós nos sentimos filhos muito amados desse Pai? Ou seremos nós adeptos, fãs, espectadores, colaboradores, sócios ou até aficionados?
Embora o evangelista João coloque estas palavras na boca de Jesus, no momento da Última Ceia, a liturgia de hoje retoma-as num momento ainda mais pascal. Se olharmos para o texto, podemos tomar consciência de que Jesus se está a “despedir “ dos seus discípulos. Dentro de pouco tempo, Ele já não estará com eles como até então. Quem poderá preencher o Seu vazio? Repare-se que João anota o pormenor que Jesus falou depois que Judas saiu. Judas que representa aqui a perspectiva de entender a cruz como um fracasso, como o fim de tudo, como o «adeus até nunca mais» de Jesus aos seus discípulos. Jesus diz-lhes: dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei. Se souberem amar-se uns aos outros como Jesus o fez, não deixarão nunca de o sentir presente no meio deles. Claro que para vivermos desta forma, será já muito positivo se vivermos como irmãos. Mas João coloca na boca de Jesus mais alguma coisa: vós sois meus amigos; já não vos chamo servos mas amigos. Então a comunidade de Jesus será uma comunidade de amizade. A Igreja é a comunidade dos amigos de Jesus. Claro que esta imagem depressa ficou esquecida. Estamos todos mais habituados a entendermo-nos como uma família, a família de Jesus. Por isso durante séculos a fio, e quem sabe ainda hoje, alguns nessa família são pais (o papa, os bispos, os sacerdotes, os abades…)e outros são filhos (os fiéis) e todos hão-de viver como irmãos. Se entendermos assim a comunidade cristã, estimulamos a fraternidade. Porém corremos alguns riscos. Na família cristã tende-se a sublinhar «o papel» que corresponde a cada um. Destaca-se o que nos diferencia, não aquilo que nos une. Dá-se muita importância à autoridade, à ordem, à unidade, à subordinação. Os riscos que se correm são visíveis: promove-se a dependência, o infantilismo e a irresponsabilidade de muitos. Afinal, na comunidade de Jesus, entendida assim, mesmo que um filho faça alguma coisa mal, ou nem sequer faça, haverá sempre um dos que é pai que virá corrigir, fazer ele mesmo, ou mandar fazer.
Em ambiente pascal, como o que estamos a viver, a Palavra de Deus sugere esta imagem da «comunidade baseada na amizade cristã». É uma imagem sem dúvida riquíssima, e que poderia não apenas enriquecer, como transformar hoje, agora, a Igreja de Jesus, a começar pela nossa paróquia. É que a amizade promove o que nos une, e não o que nos distingue. Entre amigos cultiva-se a igualdade, a reciprocidade, o apoio mútuo. Ninguém está por cima de ninguém. Nenhum amigo é superior ao outro. Respeitam-se as diferenças, mas procura-se a proximidade e a relação.  Entre amigos e amigas é mais fácil sentir que afinal a responsabilidade da Igreja de Jesus Cristo, é missão de todos, e que o seu mandamento novo nos envolve a todos. É mais fácil sentirmos que todos temos de colaborar, que temos de estar abertos aos estranhos e indiferentes ou alheados da nossa comunidade, porque precisam de ser acolhidos e precisam da nossa amizade. De uma comunidade de amigos é mais difícil alguém ir-se embora. De uma comunidade fria, rotineira e indiferente, as pessoas vão-se embora, e os que ficam só têm pena. Mas não sentem necessidade de meter mãos à obra. Jesus Cristo ressuscitado deu a Sua vida por nós a fim de que não fossemos nem frios, nem rotineiros, nem indiferentes, nem descomprometidos, nem adeptos, fãs, espectadores, colaboradores, sócios, e nem sequer aficionados. Amar-nos uns aos outros é impossível se nos sentirmos assim. O amor a que Jesus nos chama é um amor semelhante ao seu: desinteressado, libertador, de Deus. O desafio do mandamento novo de Jesus tem de ser assumido por nós. Irmãos e irmãs? sim. Mas somos sobretudo aqueles a quem Jesus chamou amigos. Aqueles que havemos de cada dia acolher o seu triunfo da Páscoa, que nos enche de esperança, e que nos dá forças para lutarmos cada dia, a fim de construirmos já aqui o princípio dos novos céus e da nova terra, onde Ele nos espera, como Cordeiro que foi imolado, sentado no trono. Claro que é necessário, como dizia a primeira leitura, «sofrer muitas tribulações para entrar no reino de Deus». Mas Deus está connosco. Do 1º ao último dos livros da Sagrada Escritura, Deus revela-se como um Criador apaixonadamente laborioso em favor dos homens. No princípio, para nos dar um ambiente que nos acolhesse. No fim, para o refazer, após uma história de pecado, que inevitavelmente nos conduziria à ruína. Aí Ele enxugará todas as lágrimas dos nossos olhos. Isto é Páscoa. Estaremos nós decididos a deixar-nos transformar na Páscoa que celebramos? A passar de adeptos, fãs, espectadores, colaboradores, sócios, ou aficionados, a irmãos e irmãs, mais ainda, a sermos hoje aqueles a quem Jesus não chama servos mas amigos?

25 abril 2010

«o Meu Pai é maior do que todos»

Mais vezes do que aquelas que pensamos os que nos dizemos cristãos vivemos de forma ateia. Dizemos acreditar em Deus, mas perante momentos como os que vivemos, na Igreja e em sociedade, vivemos como se Deus não existisse. Perante a crise religiosa actual, e diante de um “futuro incerto” para a própria Igreja, respondemos verdadeiramente como ateus. Celebramos a liberdade, mas procuramos  pouco os caminhos da verdadeira Liberdade!
Não sabemos caminhar «na presença de Deus». Olhamos para as nossas crises e planificamos os nossos trabalhos contando apenas connosco mesmos. Esquecemo-nos que o mundo está nas mãos de Deus, não nas nossas. E que o Bom Pastor, que cuida e guia a vida de cada ser humano, é Deus.
Vivemos porventura como órfãos, como se tivéssemos perdido o nosso Pai. A crise supera-nos. O que nos é pedido parece ser demais. Não há quem tenha ânimo perante uma tarefa cujo êxito não se vê aproximar por lado nenhum. Sentimo-nos sós, e cada um defende-se como pode.
No Evangelho deste domingo Jesus está em Jerusalém, talvez durante o inverno, comunicando a Sua mensagem. Para não arrefecer caminha num dos pórticos do templo, rodeado pelos judeus, que lhe fazem perguntas. Está a falar das ovelhas que escutam a Sua voz e O seguem. A dada altura afirma claramente: «o Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos, e ninguém pode tirar nada da mão do Pai». De acordo com as palavras de Jesus, Deus é maior do que todos. Então, que nós estejamos em crise, não quer dizer que Deus esteja em crise. Que os cristãos percam ânimo, não significa que Deus tenha perdido a força para nos salvar. Que nos faltem palavras ou a maneira de falar com os homens e as mulheres do nosso tempo, não quer dizer que Deus não tenha já encontrado caminhos para falar ao coração de cada pessoa. Que porventura as pessoas abandonem as nossas igrejas, não é sinónimo de que não estejam na mão do Pai.
Deus é Deus. Nenhuma crise religiosa, nenhuma mediocridade, de dentro ou de fora da Igreja, poderá arrebatar das mãos do Pai, esses filhos e filhas que Ele ama com um amor infinito. Deus não abandona ninguém. É Bom Pastor, em Jesus Cristo. Tem os seus caminhos para cuidar e guiar, para pastorear, cada uma das suas ovelhas, cada um dos seus filhos e filhas, caminhos que não são necessariamente os que nós pretendemos traças.
A vocação de todo o ser humano é à vida eterna. E passa por caminhos diversos, sejam de consagração na Igreja, para serviço dos irmãos, sejam numa comunhão íntima de vida, ou até individualmente. O Senhor da messe e pastor do rebanho continua a guiar-nos através dos pastores que Ele escolhe, e que encontram Nele, único Bom Pastor, a imagem à qual hão-de ser pastores.  Nesta semana de oração pelas vocações, em ano sacerdotal, estamos convencidos que o testemunho suscita vocações, e que se olharmos à nossa volta há mais gente como nós. Quiséramos seguir sempre esse único Bom Pastor, e ser pastores e ovelhas do seu rebanho, confiados que a Ele ninguém nos poderá arrebatar, que nas Suas mãos de Pai está a segurança que procuramos, Ele que é maior que todos, segundo a palavra de Jesus.
Estaremos nós realmente convencidos de que somos o Seu Povo, as ovelhas do Seu Rebanho? Ocorre-me dizer, somos seres animados pensantes!

16 abril 2010

Páscoa, na nossa vida!

A Páscoa é um acontecimento que espera passar da celebração solene, para a vida de cada dia, que pode ser aborrecida, monótona, cheia de rotina, mas que contém a presença discreta, porém real, do Senhor Ressuscitado. Ele está connosco e quando nós percebemos isto somos capazes de transformar toda a nossa vida numa verdadeira Eucaristia. Para isto é preciso fé. Mas também amor.
Ao olharmos para o Evangelho, e concretamente para o que hoje nos foi proclamado, nós damos conta que Jesus gosta de encontrar as pessoas nas situações mais banais da vida de cada dia. Foi assim com os discípulos, desde a primeira hora, quando os chamou para que O seguissem, e significativamente também hoje, quando os encontrou ocupados na pesca, a sua actividade habitual. Também a Mateus chamou quando cobrava impostos. A samaritana encontrou-a junto ao poço a buscar água, como todos os dias. Ao chegarmos a esta última página do Evangelho de João somos também levados à mesma conclusão: é na vida que se encontra Jesus Cristo, é com a nossa vida concreta que Ele deseja interferir. Para quê? «Lançai a rede para a direita do barco e encontrareis». Não é isto a vida? Trabalhar por vezes com resultado e outras vezes não apanhar nada?! Então se Jesus pode interferir com a nossa vida concreta nós só temos a ganhar. Não se trata de deixar de ter dificuldades, não se trata de ganharmos a lotaria, mas de aprender de Jesus certezas e motivações novas, a certeza de que construímos sobre a rocha e não sobre a areia. Com Ele é diferente vivermos como família, a maneira como tratamos os outros, a relação com as coisas, com trabalho… com a vida. No fundo é o que Ele dizia na última ceia: sem Mim nada podeis fazer. É para Ele que dirigimos o nosso coração, mesmo secretamente, até sem o sabermos. Pagou isso por preço caro, pois como dizia a segunda leitura, foi por nós imolado.
A Eucaristia, que celebramos, tem alguma coisa a ver com o regresso dos pescadores da labuta da noite: «trazei alguns dos peixes que apanhastes agora». Traz-se aquilo que se viveu, que se experimentou, que se sofreu, e tudo se torna Eucaristia. Então já não vemos Jesus Ressuscitado ao longe, nem de uma maneira confusa, mas de perto. Dos seus lábios é que recebemos a Palavra que nos reanima, e das suas mãos o Pão que nos conforta nesta caminhada. Ele está connosco vivo e ressuscitado!
Depois de comer com os discípulos na margem do lago, Jesus começa a conversar com Pedro. Um diálogo importante, para nos recordar que, na comunidade dos seguidores de Jesus, só está capacitado para ser guia e pastor quem se distingue pelo seu amor a Ele. Pedro é aquele que aparece sempre na linha da frente para dar a conhecer a sua adesão a Jesus, e é o mesmo Pedro que, na hora da verdade, é o primeiro a negar Jesus. Antes de lhe confiar o Seu rebanho Jesus faz-lhe a pergunta fundamental: Simão amas-me mais do que estes? Não lhe pergunta se sente forças, se conhece bem a sua doutrina, se sabe governar… Não. É o amor a Jesus que capacita para animar, orientar e alimentar os seus seguidores, como Ele próprio o fez. A resposta de Pedro é humilde: Tu sabes que Te amo. Mas Jesus volta a interrogá-lo. E a certeza inicial converte-se em insegurança, até que já não se atreve senão a responder: Tu sabes tudo, sabes que Te amo. À medida que Pedro toma consciência da importância do amor, Jesus vai-lhe confiando o seu rebanho para que cuide dele, começando pelos mais pequenos, os cordeiros. Cristo é o verdadeiro Cordeiro que se oferece por nós em sacrifício, que converte a sua vida na verdadeira Eucaristia, Ele é digno de receber o poder, a honra e a glória. É por causa do nome de Jesus, e não de outro qualquer, que os discípulos são açoitados, perseguidos e ameaçados, e sentem alegria. É uma questão de fé e de amor. E nós temos a sorte de ter em Maria um exemplo privilegiado do seguimento de Jesus Cristo. Sem compreender tudo, mas guardando todas as coisas em seu coração ela reúne, nesse lugar tão especial para todos os seres humanos, os acontecimentos da vida do seu filho, tornando a sua vida uma Eucaristia como cada um de nós é chamado a fazer, passando a Páscoa para a vida. Se o apascentar o rebanho de Jesus é uma questão de amor, Maria foi de facto aquela que mais amou, que mais acreditou, e que continua a apontar-nos o verdadeiro Cordeiro, Jesus, o seu filho, o Filho de Deus. Pedro experimentou a negação de Jesus. De Maria podemos razoavelmente supor, ao menos, a espada de dor que a trespassou quando acolheu o corpo sem vida do seu filho nos braços. Mas a Eucaristia é isto: trazer da vida o que experimentou, o que se sofreu, alguns dos peixes que apanhamos na faina da noite, para que se tornem vida verdadeira por Jesus Cristo, Eucaristia, pela força da Sua Ressurreição, para que de novo Ele partilhe connosco o Seu amor e nos conduza ao festim da pesca abundante, quando de novo nos disser: «Vinde comer».
São coisas que quem ama a Cristo está em condições de compreender. Por isso é que Ele pergunta: Simão, filho de João, tu amas-ME? Não tenhamos receio de substituir o nome de Simão pelo nosso. Maria a isso nos auxilia, apontando-nos o seu filho, conduzindo-nos até Ele, que nos deixa apenas uma palavra: segue-me!

02 abril 2010

Acontece(u) à (quase) dois mil anos!

E hoje acontece de novo, e sem fim aconterá enquanto houver humanidade: um homem caminha com dificuldade sob o peso de uma cruz que outros lhe carregam. Muitos homens e mulheres caminham em direcção a um pequeno monte que lhes parece intransponível. Do qual não voltarão a sair com vida. Eis os calvários dos seres humanos: para onde os nossos irmãos nos empurram, para onde caminhamos sem saber porquê, carregados com cruz(es), suportanto quedas, sustentando a vontade de nos erguermos, esperando cireneus e verónicas, vendo-nos por fim sós, rodeados de muito poucos...
Uma foi a via sacra que Ele transformou em caminho de salvação. Outras são as vias, quem sabe não sacras, por onde nós caminhamos. Sexta-feira Santa é um dia para pararmos e nos apercebermos de quanto ignoramos o sentido e o peso das cruzes que os outros carregam, e pensamos que aliviamos a nossa se formos generosos em carregar a dos outros. A resposta da via sacra de Jesus, e da que cada um vai traçando, unindo-se assim à Passionis, é o amor. Ao ponto de para nós, cristãos, não haver diferença entre esse amor e a pessoa de Jesus Cristo, e portanto do próprio Deus. «Deus é amor». Atreve-te a viver por amor!

25 março 2010

Pede um sinal ao Senhor teu Deus!

Todos os dias andamos à procura de sinais. A nossa sociedade precisa de sinais. Nós próprios necessitamos de sinais. Sinais de recuperação económica. Sinais de que o direito à liberdade de expressão e opinião é respeitado. Sinais de amor. Sinais de esperança. Sinais dos tempos. Sinais vitais. Sinais! «Executai planos», «ordenai ameaças». Mas nada temais, Deus é connosco. Seja no fundo dos abismos, seja lá no alto. Quer nos momentos de angústia, quer nos momentos de felicidade. Nos momentos de angústia para nos levantar, e nos de felicidade para se alegrar connosco. Maria soube exemplarmente acolher o sinal do Deus connosco. Acolhendo Deus ela é Sua mãe. Se nós formos capazes de O acolher, geramos de novo o Cristo, na ordem da fé, possibilitamos que Ele de entre uma vez mais na nossa história. É de cada um de nós hoje que Deus quer ouvir: eis o servo do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra. Não são os sacrifícios que Lhe agradam, mas o fazer a Sua vontade.

16 fevereiro 2010

Quaresma...

Por vezes temos de nos lembrar do que somos,
de Quem precisamos,
de tentar ver Aquele que nos vê
Quem dá sentido à nossa pobre cinza,
de Onde vem o sopro que nos dá vida.
E também de nos retirar-mos.
Bom início deste tempo!

13 fevereiro 2010

Felizes quem?!

Se abrirmos os jornais todos os dias nos aparecem notícias de controvérsias e desgraças sociais. A crise económica mundial, a riqueza de uns quantos, que não evita a degradação e pobreza de milhões de pessoas, um terceiro mundo que teima em subsistir graças ao estilo de vida do auto-denominado primeiro mundo… ou então podemos olhar até para as notícias do nosso país e surpreendermo-nos cada dia com políticos, até com os governantes, com terrorismo trazendo bases operacionais ao nosso pequeno Portugal à beira mar plantado… E se quisermos, cada um de nós pode pensar na sua rua, na sua terra, e ver com os seus próprios olhos o que vai acontecendo. Em quem colocamos a nossa esperança? Onde procuramos a nossa segurança? Em quem pomos a nossa confiança? «Maldito o homem que confia no homem, e põe na carne toda a sua esperança» dizia Jeremias, mas «feliz quem põe a sua esperança no Senhor», porque esse é como uma árvore plantada à beira da água, e que estende as suas raízes para a corrente. Por nós, o nosso valor seria imensamente pequeno, mas porque Cristo ressuscitou, também nós seremos capazes de por nele a nossa esperança, não apenas para a vida presente, mas sempre.

No tempo de Jesus, a situação em que vivia aquele povo não era melhor. E Jesus não tinha qualquer poder político nem religioso para a transformar, apenas tinha a força da sua palavra. Que ia espalhando, conforme a leitura de Lucas nos tem vindo a sugerir, a quantos o ouviam. Hoje àqueles que o ouviam Jesus grita claramente que a lógica que corre por aí, não é a lógica de Deus. É preciso aceitar perder para ganhar. Perante a situação daquelas gentes Jesus proclama-os «felizes». Aos que nada têm, eventualmente por verem as suas terras e posses sucumbir diante dos poderosos, diz-lhes que deles é o Reino dos Céus. Perante a fome de tantos homens, mulheres e crianças, embora agora tenham fome e sede Jesus promete que hão-de ser saciados. A quantos choram, porventura com a raiva de não poderem defender o melhor das suas colheitas cujos cobradores de impostos lhe arrancam, Jesus diz que hão-de rir. Não será mais uma brincadeira? Um gozo, ou cinismo? Se Jesus lhes falasse de um palácio talvez. Mas Jesus está com eles. Não leva dinheiro, caminha descalço e não leva duas túnicas. É mais um desses pobres, mas que lhes fala com fé e totalmente convicto. Os pobres entendem-no. Sabem que podem acreditar nas suas palavras. Não são ditosos pela sua pobreza, nem pouco mais ou menos. A sua miséria não é um estado de vida invejável, nem um ideal. São bem-aventurados porque Deus está do seu lado. O seu sofrimento e as suas contrariedades não durarão para sempre. Deus há-de fazer-lhes justiça. Jesus é realista. Sabe que as suas palavras não significam o final imediato da fome, das injustiças, ou de perseguições de todos os que são chamados «pobres». Mas o mundo precisa de saber que esses também são filhos de Deus, que são os seus filhos predilectos, a sua dignidade não é uma utopia, a sua vida é mesmo sagrada. Num mundo injusto, o que Jesus quer deixar bem claro é que os que não interessam a ninguém, esses são os que mais interessam a Deus; os que nós colocamos à margem, são os que ocupam um lugar privilegiado no coração de Deus; a quantos parecem indefesos e orfãos neste mundo, têm-no a Ele como Pai. Nele está a fonte da nossa esperança.

Nós, os que vivemos acomodados na sociedade da abundância, neste primeiro mundo, não temos o direito de pregar a ninguém as bem-aventuranças de Jesus. A nossa tarefa é antes escutá-las e começar a olhar para os pobres, os famintos, os que choram, os que colocamos à margem, como os olha Deus. A partir daí poderá germinar a conversão que o tempo da quaresma, que vamos iniciar, nos sugere, e cada um de nós poderá ser essa árvore plantada à beira da água, cuja folhagem, as nossas obras, não murcha, porque têm a Deus como origem, e mesmo em ano de estio, num mundo onde Cristo parece ter desaparecido, os nossos frutos continuarão a ter o sabor da Sua presença, isto é a dizer que Ele está connosco, que Ele nunca nos abandonou, que a nossa vida é testemunho da Sua esperança, que somos profetas que Ele envia a anunciar o Seu amor por nós.

30 janeiro 2010

Charitas Christi urget nos...

No domingo passado Jesus era-nos apresentado como o Cristo, o ungido por Deus para anunciar a boa nova aos pobres, a libertação aos cativos, para proclamar o tempo favorável do nosso Deus. Esta escolha, como a de cada um de nós, que pelo Baptismo somos sacerdotes, profetas e reis em Jesus Cristo, aconteceu «antes de sermos formados no ventre materno», isto é, desde sempre. É o Senhor quem nos faz anunciar «o que Ele nos ordenar». O profeta por excelência, à imagem do qual somos profetas é o próprio Jesus Cristo, à luz do qual entendemos estas palavras do profeta Jeremias. E como Jeremias, como Jesus, como Paulo, somos enviados a anunciar um caminho de perfeição que ultrapassa tudo. Mas desde logo Jesus nos previne: «nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra». E dá dois exemplos. Elias e Eliseu. O simples facto de recordar acontecimentos passados, para fazer perceber o presente, desperta a fúria dos ouvintes de Jesus. E este Jesus que Deus envia ao Seu Povo, este menino que há pouco contemplava-mos como dom de Deus para nós, é agora homem, que é expulso para fora da cidade. Já tinha nascido fora, mas para que não restassem dúvidas, até da sua própria terra foi expulso. Levado para fora da cidade. Não foi a primeira e não foi a última. Desde já Lucas prefigura qual o desfecho deste caminho que Jesus segue. Será também fora da cidade que há-de ser crucificado e sepultado. Não demorou muito a que Deus fosse rejeitado pelos homens. Se bem que todos se admiravam das suas palavras, todos são novamente os que ficam furiosos. O Profeta, aquele que não se anuncia a si mesmo, mas à Palavra de Deus, não é compreendido imediatamente. E pese embora o seu anúncio de libertação, de salvação, que inicialmente atrai, bem depressa se converte em escândalo para os seus ouvintes. Foi assim com Jesus, Ele próprio nos disse que haveria de ser assim connosco. Porém Jesus não desistiu de anunciar esse caminho de perfeição que ultrapassa tudo. E a nós também nos deve mover a caridade de Cristo. Porque é essa mesma a que dá sentido a tudo o que dizemos e fazemos. Pouco importa falarmos línguas, dos homens ou dos anjos, das coisas da nossa realidade, ou da vida que esperamos, sem caridade. Porque seremos sempre aparentemente robustos, e na realidade ocos, vazios. De nada nos serve anunciar, ou porventura ter grandes conhecimentos, ou até termos fé, porque sem caridade, sem o mesmo amor que Deus nos manifestou em Cristo Jesus, nada somos. Mas essa caridade não é apenas a que brota do exterior, que até nos pode levar a dar tudo o que temos, mesmo anulando quem somos. A nossa caridade tem de ser a de Jesus Cristo: paciente, benigna, alegre com a verdade, pronta a desculpar tudo, a tudo crer, tudo esperar, tudo suportar. Então ela não acabará nunca. E mais ou menos perfeita, à Luz Daquele que é perfeito, todas as imperfeições serão purificadas. E quando Ele quiser também nós conheceremos como somos conhecidos. Antes, porém, temos de tomar consciência de que somos comunidade profética, para anunciarmos como Jesus a Palavra do Pai, servirmos à libertação dos pobres e marginalizados aqui e agora. E então poderemos dizer «vi Aquele que me vê», porque o seu amor bondoso e o seu perdão misericordioso em nós mostraram outro: Jesus. Diante de todos, se assim procedermos, é Deus quem nos coloca: poderão combater contra nós, como fizeram com Jesus, mas não poderão vencer-nos porque Deus está connosco para nos salvar. E esse é um caminho de perfeição que ultrapassa tudo. O amor é a profecia que por excelência temos de anunciar, mais ainda, é a palavra que se faz caminho a seguir. Jesus passou pelo meio deles e seguiu o seu caminho. Hoje de novo passa pelo meio de nós. E nós, estaremos decididos a seguir o Seu caminho?

28 janeiro 2010

Os dias que correm

Procuramos tantas vezes sentido para o que nos acontece que muito provavelmente ficamos muito distantes do que nos acontece. Não vemos oportunidades nas dificuldades que nos aparecem, e muito provavelmente ficamos circundados de montes e colinas que os nossos olhos deixam de contemplar, para ficarem cravados no chão em vez de olharmos para cima, deixando que o azul que está mais alto, fique apenas negro...
Em vez de trabalharmos, ficamos parados na crise. Em vez de arregaçar mangas, acabamos por fielmente aconchegar as últimas camisas que temos passadas a ferro. Em vez de nos alegrarmos por estarmos vivos, lamentamos a passividade com que agarramos os problemas. Tantos e tantos exemplos. Cada um de nós tem os seus. E quem dera que soubessemos encontrar sempre a oportunidade que negamos. Temos sempre a Palavra de Alguém que prometeu estar quando tudo falha, que prometeu libertação, que prometeu ficar connosco, que prometeu receber-nos um dia, que até veio até nós, que continua a vir. Mas quantas vezes olhamos apenas para as palavras?! Por outro lado, era melhor também podermos usá-las para ripostar, gritar, procurar, pensar...
Somos estes seres estranhos, que tão depressa olhamos do fundo do poço, como nos sentimos nas alturas, ou ainda decidimos construir pontes e derrubar muros. Felizmente também somos seres animados pensantes, e de novo conseguimos interrogar a Resposta Daquele que nos vê.

20 janeiro 2010

Uma pausa nos dias que correm... para rezar!

Cristo Ressuscitado,
como caminhaste com os dois que viajavam pela estrada de Emaús,
vem conosco em nossa jornada de fé.
Nos encontros que tivermos pelo caminho,
dá-nos compaixão para ouvir a história do outro,
paciência para explicar o que pode parecer óbvio para nós,
e a coragem para nos tornarmos vulneráveis,
para que outros possam encontrar-te através de nós
e nos possamos redescobrir-te através deles.
Amén.
(Lindsey Sanderson, subsídios da Escócia para a Semana da Unidade dos Cristãos, disponíveis em vatican.va)

06 janeiro 2010

Novo diário (1) Ano novo, a mesma vida

Ano novo, a mesma vida, nova tentativa de escrever este post, sem que o computador vá abaixo… Hoje foi dia de retomar o trabalho. Não porque o tivesse deixado, mas porque estive ocupado com outros trabalhos. Também não foram férias, à parte de não haver aulas para preparar, nem aulas para dar. Fiquei contente por ter terminado um trabalho que comecei em um ano e seis meses atrás. Quem dera já não ter de lhe voltar a tomar o sabor, mas claro, falta o ponto final. Porém nem só de retomas de aulas foi o dia. Antes disso já tinha retomado a estrada, as curvas, os telefonemas durante o caminho, o cumprimento do código da estrada, prudentemente verificado por duas brigadas que me saudaram… Andei pela primeira vez a pé sozinho numa distância mais considerável, cá nas bandas, e senti o frio do tempo, na cara, o calor das pessoas que encontrei, no coração, e o céu a ameaçar neve, que agora se veio revelar zangada connosco, ou mais vulgarmente, que foi comida pelo nevoeiro.

Também foi uma oportunidade para rever o horário e plano de vida. Sim, um verdadeiro documento ‘gráfico’ onde tenho distribuídos tempos, momentos, e formas de andar p’ra frente… Deu-me o riso com alguns dos meus objectivos, e atrevo-me a partilhá-los. O primeiro é o cumprimento diário do horário e plano semanal. Diariamente é suposto seguir uma catrefada de planos, marcações e coisas do género. Para uma ideia mordaz da questão diariamente tenho cerca de 9h atribuídas a um possível sono, 7h30 para trabalho, estudo e coisas afins, 3h de oração litúrgica e pessoal, e 4h30m para refeições, higiene e tempo livre… ainda estou para fazer o gráfico! Sim, o rapaz é afinado. Não fosse o segundo propósito/compromisso que quero partilhar convosco: esquecer o horário e compromissos um dia, uma vez por semana. Realmente, tanto trabalho, tanta planificação para no fim de contas chegarmos a isto. Não estou a brincar nem convosco, nem comigo. Explico: não posso deixar que um pedaço de papel, ou meia dúzia de folhas controlem a minha vida. Não sou escravo da planificação. E antes que lhe prometa fidelidade inviolável, vale mais deixar já claro que há um ponto de fuga. Só uma vez por semana. Outra vez por semana quero desligar-me do telemóvel e outros meios de comunicação afins, tipo, vulgo, internet. E depois a seguir queixar-me e ouvir as queixas dos meus amigos e amigas que dizem: mas olha lá, ainda és vivo? ‘tás mesmo no fim do mundo, nem o telemóvel atendes!!! Para que te mando eu mail’s? ou esta mais engraçada: quando precisares depois eu cá estou! Mudando de ritmo, uma vez por mês, quero fazer um passeio. Sem mais nada, sem nenhum objectivo concreto, ao sabor do tempo e das rodas do carro. Estejam atentos à estrada, quem sabe não apareço diante de vós, ou desviem-se, quem sabe não tenho tempo de travar!!! Esta é mesmo de rir, mas quero cumpri-la a sério, como pessoa séria e empenhada no meu bem-estar: uma manhã de desporto por semana… Depois há os propósitos de leitura e escrita. Ao menos um livro por mês e andar sempre com um caderno para alimentar as linhas de poesia que de vez em quando me lembro. Tantas vezes hei-de lançar olhares em verso, que certo dia algum há-de ser perfeito. Também quero actualizar mais vezes este blog, no mínimo duas vezes por mês.

Até parecia mal se não falasse do acontecimento que hoje marca o dia. Cá no sítio, idosos e crianças vieram encontrar-se com o menino Jesus no presépio. Como nesse tal acontecimento, estes reis trouxeram-lhe presentes. Até se ouviu um balido inocente de um cordeiro negro ao colo de um actuante pastor. E Jesus voltou de novo a manifestar-se a todos os povos como a Salvação de Deus. Já pela manhã tinha dito a pequenos e não tão pequenos quais eram os presentes que os do Oriente tinham ofertado ao menino Jesus. Ouro, incenso e mirra. E expliquei: hoje cabe-nos a nós oferecer-Lhe a mirra de sermos verdadeiras imagens de Deus, homens e mulheres criados como Ele nos quis (por vezes custa tanto aceitar isto, e vê-se cada coisa…); o nosso incenso é sermos capazes de ouvir Deus que nos quer falar, e falarmos com Ele, aquilo a que chamamos oração; e o ouro… esse teve várias tentativas de definição, mas eu sugiro uma própria: oferecermos-lhe a nossa vontade, afinal é essa mesmo que Deus precisa para fazer em nós maravilhas.

Resta dormir e esperar que amanhã seja outro dia assim: frio, quente, nevoeiro, luz, sombras, planos, viagens, conversas, aulas, reis, negros cordeiros, ouro, incenso e mirra. Amén.

03 dezembro 2009

Louco?! [2]

Andei a revisitar os textos do meu blog, e apesar de outros textos mais próprios de advento, sabe bem reler este. A mim soube. Porque só um Deus enlouquecido de Amor pelo Homem pode continuar a vir ao seu encontro. Porque só um ser humano que enlouqueça de amor por Deus pode deixar-se ir ao seu encontro sem temer o quando. Em 7 de Maio de 2007 dizia assim um post:

«...Vácuo imóvel e mudo! Necessidade fria e eterna! Destino louco! Que sós estão na ampla necrópole do universo. E eu também estou só, só comigo mesmo. Ó Pai, onde está o teu peito infinito para poder reclinar-me nele?...» (o Homem louco - texto adapt. de Jean Paul, filósofo ateu francês - Excerto do Teatro "Deus Morreu?!", apresentado pelo S M G)

Por vezes a personagem que encarnei sou eu mesmo, em cada dia. Também tenho dias em que me sinto só. Só, comigo mesmo. Só, no meio do mundo. Só, na presença de Deus. Mas só. Que raio de vida. De facto, que destino - entenda-se vida - louco! Quanto de só, de vácuo, de imóvel e mudo tem por vezes o meu interior. Quisera tantas vezes dar largas a todo o turbilhão de sentimentos que pululam bem dentro de mim. Mas não. Calo e não digo. Penso mas não faço. Engulo mas não deixo transparecer. Pergunto-me tantas vezes se Seguir Cristo também é isto.

Não olho para tudo como uma ampla necrópole, tudo à espera de uma purificação pela morte, e num momento futuro é que tudo há-de ganhar sentido. Deus há-de ser tudo em todos, sim. Mas a criação é obra Sua. E não creio que esta seja uma imensa cidade de mortos, onde as diversas cores deixam adivinhar a alegria do que é estar ainda do lado de cá. Mas porque há-de ser tudo assim? Porque não havemos de poder dizer tudo quanto nos vai na alma? Diz o salmista, "agora porém gritarei como aquela que dá à luz, desafogarei todo o meu ardor". e GRITO. E gritarei. Não sei se seguir Cristo é também isto. De certo é abandonar-se à Sua vontade e acreditar que nenhuma dificuldade é maior do que Ele. Quando nos sentimos sós, e comigo muitas vezes felizmente acontece, depois de algum modo Ele (Se) me faz sentir bem perto.

Louco?! Sim, bastante pois não é fácil que muitos vejam sensatez na adesão a Alguém que deu tudo sem esperar nada em troca, e que quer que façamos o mesmo. Não seremos salvos de certeza pela grandeza dos nossos méritos, mas pelo Amor infinito e omnipotente que Deus nos manifestou no Seu Filho. Louco Ele, insensato aos olhos do mundo. Mas não encontrou Ele descanso no peito infinito do Pai? Não foi Ele ressuscitado como Aquele a quem o Pai disse "o meu amor por ti quer dizer Tu-não-morrerás" (G. Marcel)?!

Sabe bem ser louco, insensato aos olhos do mundo. Perder comigo mesmo o sentido das coisas. É uma necessidade fria, e eterna enquanto houver humanidade, esta de procurar um sentido. Mas é quando o perco que logo aí me consigo voltar a encontrar... Há males que vêm por bem.

O dia termina. Amanhã levantar-se-á o Sol da Justiça. Termino com uma prece. Permite-me ó Pai, encontrar o teu peito infinito para poder reclinar nele a minha cabeça e encontrar em Teus braços a força que hoje me falta.

04 novembro 2009

Assumir a Cruz

A melhor forma de prepar a morte é vivermos santamente a vida. Disto mesmo dá testemunho a Palavra de Deus que hoje escutámos. Paulo dirigindo-se aos Romanos, exorta-os, e a nós também: «Não devais a ninguém coisa alguma, a não ser o amor de uns para com os outros, pois, quem ama o próximo cumpre a lei. De facto, os mandamentos que dizem: Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e todos os outros mandamentos, resumem-se nestas palavras: Amarás ao próximo como a ti mesmo. A caridade não faz mal ao próximo. A caridade é o pleno cumprimento da lei.» É suficientemente claro para necessitar de uma explicação mais directa. O nosso dia hoje, neste momento, pela fé, faz-nos perceber a necessidade de vivermos veradeiramente a caridade. Ao mesmo tempo sentimos a dificuldade em assumir-mos que há de facto algo que devemos uns aos outros: o Amor que Deus nos tem e que nos leva a amar os irmãos, ou pelo Amor que Deus tem aos outros, devemos amá-los.
Daquele que assim proceder, diz o salmo «O seu coração é inabalável, nada teme». Esse põe a sua confiança no Senhor, coloca nele a sua justiça, ama os seus preceitos, sabe que não deve fazer mal ao seu próximo.
É claro que é bem mais fácil dizer do que fazer. Mas as palavras de Jesus no Evangelho de hoje iluminam-nos mesmo assim: «Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo». Quiseramos que fosse mais fácil, quiseramos que tudo isto fosse possível sem cruz. Mas Jesus desafia-nos, como temos vindo a escutar no Evangelho dos domingos precedentes, a segui-Lo pelo seu caminho. Um caminho que conduz a Jerusalém, que passa pela cruz. Um caminho que só teremos seguido verdadeiramente se assumir-mos também a nossa cruz.
Pela fé acreditamos que este caminho não termina na cruz. Pela fé sabemos que o de Jesus não terminou na cruz. Pela fé esperamos que também o nosso há-de terminar com um começo: a noite da dor do Filho único de Deus, abre-se à luz pascal, e por isso hoje estamos aqui a implorar para este nosso irmão, cuja vida passou do meio de nós, o dom de Deus, o dom da vida eterna. Que o Senhor, bom Pastor, que nos faz caminhar em prados verdejantes, a quem temos por apoio, que prepara para nós a mesa e o cálice, mesmo diante dos nossos problemas, nos ensine a todos o caminho da vida, para que a seu lado, como hoje imploramos para o nosso irmão, vivamos, um dia, na plenitude Sua da alegria.

19 setembro 2009

O Senhor sustenta a minha vida (partilha)

Esta é a partilha que vou fazer este Domingo nas novas comunidades onde farei estágio pastoral. Pode ser que ajude aqueles que o lerem, mais que não seja a que possam rezar por mim, em mais uma etapa.
Este Domingo a Palavra de Deus que nos é proposta coloca frente a frente dois modos de proceder: o dos ímpios e o dos justos. Há os que vivem na rectidão, na paz, que procedem com misericórdia. E há os que pensam em invejas, rivalidades, conflitos e toda a espécie de más acções. No seu caminho estes últimos, os ímpios, encontram o justo, que até pela sua vida é uma reprovação viva do seu modo de proceder. Jesus, no Evangelho, não cria distinções. Fala daqueles que acolhem, sem olhar às dificuldades em O compreenderem e O seguirem, mesmo deixando entender, até pelas narrações anteriores de Marcos, que também fala para os que O não recebem.
Na primeira leitura do livro da Sabedoria, de acordo com o seu estilo, quer-nos fazer compreender uma lição essencial: a incompatibilidade entre os dois modos de vida, gerando dificuldades inevitáveis para o que quer viver segundo a Lei de Deus. A leitura de hoje não pode ser isolada do contexto e até do capítulo em que se integra cuja mensagem essencial é «Deus não quer a morte, a justiça é imortal». Pelo seu modo de vida, pela lembrança das suas convicções, o justo torna-se para os ímpios uma censura permanente. Daí a atitude dos ímpios: a melhor maneira para se tranquilizarem é eliminá-lo. Na Paixão de Cristo isto deixa de ser apenas uma lição de moral, para se converter numa realidade inscrita no coração da história humana. Não se tratam apenas de aspectos materiais: ultrajes, tormentos, condenação à morte… São também todos os acontecimentos que, pouco a pouco, se vão acumulando no decorrer dos factos. A Paixão dele é de facto a paixão do justo que nos descreve o livro da Sabedoria. Junto à cruz evoca-se isto mesmo, quando, na narração de Lucas, o centurião que O trespassa exclama «de facto, este homem era um justo». Nouvelle du salut annoncée aux hommes par JésusAttitude qui incite à l'indulgence et au pardon.
Tudo isto nos diz respeito. E de que maneira. A carta de S. Tiago retoma estas duas formas de vida: a da justiça em Cristo Jesus, e a que, independentemente das aparências, será o reverso da medalha, fonte de conflitos e da morte. «Cobiçais e nada conseguis: então assassinais. Sois invejosos e não podeis obter nada: então entrais em conflitos e guerras. Nada tendes, porque nada pedis.» É uma passagem realista. De facto somos nós, homens e mulheres, que destruímos, e que criamos os sofrimentos, as desigualdades, as guerras. «Pedis e não recebeis, porque pedis mal, pois o que pedis é para satisfazer as vossas paixões.» Ao contrário, a Sabedoria que vem de Deus e antes de mais rectidão, e consequentemente, paz fecunda. «Ela dá o seu fruto aos que fazem a paz.» Diz uma passagem do sermão da Montanha: «Felizes os que fazem a paz, porque serão chamados Filhos de Deus». Cabe-nos então a nós acolher o Filho do Homem, em toda a sua verdade e realidade, que inclui a sua paixão e morte, para partilharmos na Ressurreição a vida divina Daquele que no-la enviou. A explicação dada aos apóstolos, por Jesus no Evangelho, quer iluminar a sua incompreensão que não é senão um reflexo da impiedade que a todos nos habita. O silêncio no qual eles se fecham vem do medo que têm em Lhe perguntar o sentido daquilo que o Mestre afirmara.
A realidade e a proposta que Jesus nos apresenta são diferentes daquelas que poderia vislumbrar o autor do livro da Sabedoria, algumas dezenas de anos antes. Jesus é rejeitado por outros motivos. Em primeiro lugar por ser um incómodo, por trazer ao de cima a verdade. Uma verdade que faz tremer o círculo em que se fechara o ímpio. «A verdade vos fará livres». Depois, ele não é apenas um justo no meio dos justos, com uma personalidade interessante. Também não é apenas a consciência dos que andam dispersos. Como Messias, Ele é provocante de outra forma. Reune o Povo de Deus sobre o próprio Deus. Os seus adversários não são ingénuos quando o apresentam a Pilatos como alguém que ameaça a autoridade civil, embora ele não lhe encontrasse qualquer culpa, e soubesse que não era esse o motivo pelo qual o queriam condenar. Mas o medo de uns e de outros gera a condenação à morte. A pretensão de Jesus é mais radical que uma pretensão política ou social, qualquer que seja. Ele não é apenas um filho como todos os membros do povo de Deus. Ele é o Filho, o Único. E isto é que os que estavam acomodados à ordem estabelecida não podiam tolerar. A questão central é simplesmente esta: «Diz-nos, pelo Deus vivo, és tu o Cristo-Messias, o Filho de Deus?» «Deus chamou-nos por meio do Evangelho, para alcançarmos a glória de Nosso Senhor Jesus Cristo.» Se no fim, é Deus quem nos acolhe, é preciso já, acolhermos, nós, Aquele que Ele enviou. Pelo exemplo de Jesus, que toma nos seus braços uma criança, como sinal deste acolhimento, Ele quer-nos recordar que temos de acolhê-LO, nos mais pequenos, não apenas as crianças, mas nos pequenos aos olhos do mundo, mas afinal em quem Ele vem ao nosso encontro: em quem quer que se encontre na miséria, na pobreza, na fome, na solidão.
Falando em quem vem ao nosso encontro, esperais naturalmente que vos diga quem sou, e alguma coisa do que fiz e do que farei no meio de vós. Peço a vossa boa-vontade para escutardes. Quiseram chamar-me Rui ainda antes de ter nascido prematuro a 6 de Junho de 1986 na maternidade do Penedo da Saudade, em Coimbra. Filho mais novo da família, sou natural do Penedo da Sé, paróquia do Marmeleiro, concelho da Guarda, paróquia onde me baptizaram a 10 de Agosto do mesmo ano, e onde faria a caminhada normal de catequese, sacramentos, escola primária, até em Setembro de 1995 iniciar a caminhada de Seminário, no menor da nossa diocese, no Fundão. Entrei para o Seminário movido pelo exemplo do meu pároco, entretanto falecido, mas de que me marcou profundamente na minha imagem do sacerdócio. No Fundão passei os 5 anos do ensino básico. Em 2000 transitei para o Seminário Maior, na Guarda, onde fiz o ensino secundário e os dois primeiros anos do Curso de Teologia. Em 2005 interrompi o percurso de seminário, para ir frequentar o 3º ano do curso de licenciatura em Teologia na Faculdade de Teologia da UCP – Porto, onde transitaria para o Mestrado Integrado em Teologia. Regressei à Diocese em Setembro de 2006, a partir de quando comecei um semestre de trabalho pastoral, de acordo com as orientações do Senhor Bispo e do Reitor do Seminário, em três locais distintos: as Paróquias da Guarda (Sé e S. Vicente), confiadas aos Rev.dos Padres António Moiteiro e José Dionísio; a Equipa de Pastoral da Casa de Saude Bento Menni, sob a direcção da Ir. Alice Roseiro; e na Cáritas Diocesana. No 2º semestre desse ano lectivo recomecei as aulas no ISTBD, em Viseu, a frequentar o 4º ano de Teologia, onde estive até ao mês de Junho passado. Pastoralmente passei, mais tarde, a colaborar com o Pe. António Morais, em Gouveia, Folgosinho, Nabais, Freixo da Serra em 2007/2008, e no último ano também em Melo, até Julho passado. Em 2008/09 frequentei o Ano pastoral no mesmo instituto, acumulando a frequência do Mestrado na Faculdade de Teologia da UCP-Braga, onde sob a orientação do Prof. Doutor João Duque, me encontro ainda a realizar a tese sob o tema «o discurso sobre Deus na Teologia feminista de E. Johnson». Recebi no dia 8 de Dezembro o ministério de Leitor, e em 27 de Junho o ministério de Acólito.
Em Julho deste ano o Senhor Bispo pediu-me que realizasse o estágio pastoral junto do Pe. João Barroso, nas cinco comunidades paroquiais que lhe estão confiadas e no Dep D. Infância e Adolescência do SDEC. Entre outros serviços que o senhor padre ainda me há-de pedir, ocupam-me o tempo as aulas de EMRC na Escola EB2/3 de Loriga, e a organização da catequese paroquial. Encontro-me portanto num percurso em ordem ao sacerdócio, ao qual desde cedo me senti chamado, e que se Deus quiser hei-de abraçar num futuro não muito distante. Quisera servir-me das palavras do Evangelho de hoje, que é bastante sugestivo, no que diz respeito a como me apresento no meio de vós: apresento-me como o último de entre vós, e o servo de todos. Ajudai-me a caminhar, sobretudo com a vossa oração. Quem quer seguir Jesus tem de mudar a mentalidade, os esquemas de pensamento, os valores egoístas e abrir o coração à vontade de Deus, às propostas de Deus, aos desafios de Deus. Para poder exclamar com o salmista : “O Senhor sustenta a minha vida”. Mais do que um desafio que coloco a mim mesmo, é o desafio que a palavra de Deus hoje nos deixa a todos. Saibamos nós, de coração agradecido, deixar que o Senhor seja o sustento da nossa vida.

24 julho 2009

Afinal ele está connosco!

Deus acompanha-nos. Com a multiplicação dos pães, Jesus revela que Deus está atento à nossa vida humana ordinária e quotidiana. Já no domingo passado o Ev chamava a atenção para o olhar de Jesus sobre a multidão: ao ver uma grande multidão compadeceu-se dela porque eram como ovelhas sem pastor, e começou a ensiná-los. O essencial para todos nós é encontrar, hoje, ou cada dia, a resposta à nossa necessidade de saber, de conhecer, para dar-mos um sentido à nossa vida, a toda a nossa vida. Jesus ensina a multidão dos que acorrem até ele. Tanto ou tão pouco que eles acabam por passar um dia inteiro, sem se aperceberem, e ao cair da noite, era tarde para ir procurar alimento às aldeias à volta, casais e quintas. Este é o quadro de continuidade que o Ev hoje nos apresenta. Por um momento parece que o Evangelho e o próprio Jesus se tornam realistas, se podemos considerar assim. Ele tinha dado prioridade a ensinar a Palavra, ao alimento espiritual, mas reconhece também a situação em que a multidão se encontra. E novamente é ele que toma a iniciativa, e pergunta a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?» A resposta é também realista: o salário de duzentos dias de trabalho não dava para alimentar aquela multidão. Eles não tinham meios para tanto.
O Homem acompanha Deus. Jesus revela-nos o verdadeiro rosto de Deus, que através do seu Filho alimenta a multidão. Mas Deus requer a participação do homem. Espera de nós que sejamos sinceros e demos o que temos. Tem necessidade da nossa ajuda, mesmo se for insignificante, mas sincera. Não pode, ou não quer, fazer o milagre a partir do nada. «Um rapaz, cinco pães e dois peixes». Nem sequer é a partir da fé dos apóstolos. Deus nem nos substitui, nem se substitui a nós. Confia-nos a tarefa de fazer acreditar e multiplicar os seus próprios dons que se tornam assim dons nossos. Acabamos por reconhecer ao mesmo tempo os nossos limites, mas também a nossa grandeza em colaborarmos com a nossa acção na obra de Deus. Assim aconteceu com Eliseu na 1ª leitura que diz ao servo para alimentar as gentes, mesmo se eram poucos pães para tanta gente. Mas cumpriu-se o que o Senhor disse: comerão e ainda há-de sobrar. E assim foi. Mas também nós hoje podemos fazer o mesmo: em vez de procurar culpar Deus pelo mal que há no mundo, dar-mos as nossas mãos pelas grandes causas, como pelas pequenas. Ajudando quem sofre longe, ou perto, mesmo ao nosso lado. Dando do nosso pão e dos nossos peixes. O milagre é tarefa de Deus, mas também passa pelas nossas mãos. E porque muito amámos muito nos será perdoado.
Deus acompanha-nos. Quando ficaram saciados, quando o milagre se tinha realizado, a multidão espantada, reflecte no que tinha acontecido. Não pensa nos doze cestos que sobram, e no que quereria dizer isso, nem no número dos pães e dos peixes. A conclusão foi mais transcendente e ao mesmo tempo a mais normal: «Este era na verdade o profeta que estava para vir ao mundo». Então Jesus retira-se. Ele sabe que o queriam reter, que o queriam fazer rei. E retira-se porque não quer que nos detenhamos no milagre materialmente falando: muito pão, mais que o necessário, sem dinheiro. Nem noutra qualquer significação espiritual que não seja a de quem descobre o Coração do próprio Deus, que nos ama e sabe que nós, homens e mulheres, também hoje neste tempo, não vivemos só de pão. Por isso é que antes de alimentar a multidão, os instrui longamente. E depois retira-se sozinho, para o monte. Parece que tudo termina. Jesus não veio resolver a fome do mundo, nem naquele tempo, nem neste. Mesmo que ele tenha matado a fome àqueles, e hoje a nós, espiritualmente falando, somos nós, homens e mulheres, que temos de matar a fome aos nossos irmãos que sofrem. Veio para nos lembrar o essencial: «vinde e vede». Não é por causa dos pães e dos peixes que temos de O seguir. É pela Palavra que ele nos dá. A mesma que Ele foi enviado a anunciar, a mesma que hoje nos diz. E que somos de novo chamados a anunciar. A nossa vocação, como nos recorda Paulo, é a de sermos chamados a uma só esperança: Ele que está perto de quantos o invocam (Salmo), um só Deus e Pai de todos, que embora estando acima de todos, actua em todos, e em todos se encontra.
O Senhor nos torne conscientes de tudo isto e nos mova o coração, e os braços, para sermos hoje o milagre de Deus no meio do mundo, que de novo quer saciar todos os homens e mulheres com o Pão da vida, Jesus Cristo, a Palavra de Deus ao mundo em que vivemos, que nos garante que Deus não nos abandona, antes nos acompanha, ao ponto de dar a vida por nós. Ámen.

21 julho 2009

verdade na caridade

Ando a ler a nova encíclica do Papa. Não haja dúvida de que é um documento interessante sobre vários pontos de vista. Aliás, espero com isto desafiar muitos à leitura. Já agora, alguém me saberá responder porque é que não parece a mesma pessoa a escrever, quando relacionado com as atitudes que transparecem do seu ministério como sucessor de Pedro?!